5.7.09

Michel Onfray


«Eu não considero que a anarquia seja o fim do estado, dos tribunais, da escola, da prisão, da tropa, do trabalho, do dinheiro... Isso é bom para quando se tem 12 anos. Sou um libertário que não exclui a necessidade de entrar em guerra, desde que ela aconteça para defesa da liberdade. Tenho mais de dois neurónios e sou pragmático. Não sou um anarquista religioso que pensa a anarquia como o religioso pensa o mundo paradisíaco. As pessoas confundem a liberdade com o ser-se licencioso. A liberdade é uma construção, uma finalidade, não uma origem. E ensina-se. Senão é como atirar alguém para uma piscina sem ensiná-lo a nadar.»

Michel Onfray, entrevista a Inês de Medeiros para a revista Relance, nº7, Maio de 2009.

4.7.09

Do exagero


Na capa do livro Os Meus Prémios podemos ler o seguinte: «Thomas Bernhard no melhor da sua arte narrativa». Quem escreveu isto já terá lido mais algum livro do autor?

Escritores polémicos


O tempo nunca é suficiente. Se há escritor que eu gostava de ter conhecido, esse escritor é Thomas Bernhard. Dizem que é um escritor polémico. A ideia do escritor polémico é uma ideia que sempre me fascinou, principalmente quando parte dos “escritores polémicos” que conheço são escritores que escreveram aquilo que lhes vai nas vísceras (não digo alma pelo simples facto de não acreditar em tal coisa) e disseram, sem reservas, aquilo que muito bem entenderam sobre tudo e todos – inclusive sobre eles. Não se preocuparam com mais nada. Isso, pelos vistos, faz deles “escritores polémicos”.

Thomas Bernhard


«O problema é sempre ser capaz de levar a cabo o trabalho, com a ideia de nunca e nada ser capaz de levar a cabo... é a questão: prosseguir, prosseguir sem contemplações, ou acabar, pôr fim... é a questão da dúvida, da desconfiança e da impaciência.»

Thomas Bernhard, Os Meus Prémios, Lisboa: Quetzal, 2009, p. 137.

26.6.09

Pausa



21.6.09

Um poema de Pedro Mexia

Para o meu bem

Os pais tudo fizeram
para o meu bem.
Amparando quedas
da metafórica bicicleta.
Exorcizando sustos
que eu próprio espantava.
Dizendo, sem dizer,
a razão que tinha Agostinho.
Mostrando, sem mostrar,
a ética diferença.
Os pais tudo fizeram
para o meu bem.
A quem posso eu sair?

em Vida Oculta, Lisboa: Relógio D'Água, 2004, p. 30.

Pequenos prazeres burgueses


Hoje entreguei-me aos pequenos prazeres burgueses: levantei-me a meio da manhã, tomei o pequeno-almoço sozinho, limpei o pó ao interior do carro, tomei duche, observei-me ao espelho e conclui que tenho de emagrecer mas mesmo assim sou um gajo bonito, desfiz a barba e almocei em família. Tudo isto feito ao som de boa música: não a que passa na rádio, mas aquela que o meu pequeno leitor mp3 me proporciona. Assisti com relativo desinteresse às notícias que falam dos confrontos em Teerão e ao facto do presidente venezuelano querer o petróleo a 100 dólares o barril, mas prestei atenção ao jornalista quando disse que o verão chegou hoje – e comecei logo a pensar onde é que vou passar as férias em Agosto.

Lí por aí


«Esta história do TGV, confesso, está a depauperar-me os nervos. Entontecido pela derrota eleitoral, o governo do supremo engenheiro já não tem certeza de que os portugueses entendam bem e, por isso, hesita, faz que vai e não vai, não coisa nem deixa o terreiro livre, e a dama escanzelada da política de verdade regozija e quer mais, pede explicações, esclarecimentos - goza o momento. Para falar absolutamente verdade, porém, conviria explicar que a tal escanzelada dama, ora triunfante, era ministra das Finanças de um governo que assinou com Espanha um documento prevendo cinco linhas de TGV, cinco, e o país era, parece, exactamente o mesmo, cronicamente deficitário, e eram exactamente as mesmas as gerações futuras que o projecto hipotecaria. A bem da verdade, isto é tudo um bocadinho idiota, sobretudo por ser bastante evidente que há mesmo gente capaz de ser enganada por golpezinhos baixos e falsas verdades de gente desta. Eu nem sequer gosto do TGV, mas, face à qualidade do debate político em Portugal, surpreendo-me, às vezes, a simpatizar com o bicho.»

Manuel Jorge Marmelo em Teatro Anatómico

Nota: destaque da minha responsabilidade.

Um poema de Carlos Luís Bessa


poema com domicílio

Esta apólice, o vizinho de cima
A puxar o autoclismo
A bater na mulher e nos filhos.

A água da torneira com cheiro a lexívia
Sempre a pingar
O televisor com uma avaria.

Talvez o canteiro das flores
Sujas e mal tratadas
Estas zangas por tudo e por nada.

em Lançam-se os Músculos em Brutal Oficina - O Conhecimento das Coisas, Lisboa: & etc, 2000, p.27.

20.6.09

Da impossibilidade?


Sempre que aqui venho – a Manteigas, entenda-se (já não vinha cá há 1 mês e 5 dias) – digo sempre qualquer coisa como ela estar parada, amorfa e essas coisas do género. Hoje, no entanto, quando fui buscar o jornal ao lugar de sempre, soube-me bem passear pelas ruas desertas. Enquanto escrevo isto ouço o projecto Wordsong – um dos projectos musicais portugueses mais interessantes. Al Berto diz-me que: «o verdadeiro fugitivo não regressa/não sabe regressar» e eu pergunto-lhe se será esse o meu caso.

Um poema de Alexandre O'Neill


Em todo o acaso

Remancha, poeta,
Remancha e desmancha
O teu belo plano
De escrever p’la certa.

Não há «p’la certa», poeta!

Mas em todo o acaso acerta
Nem que seja a um verso por ano…

em No Reino da Dinamarca (1958) in Poesias Completas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 83.

18.6.09

Lí por aí


«Sócrates quer andar para a frente com os portugueses optimistas. Paciência. Fiquei para trás.»

Paulo Rodrigues Ferreira em 00:04

O decifrar dos dias

Com o decifrar dos dias acumulam-se as dúvidas, o que não deixa de ser estranho, pois se os dias são decifrados, as dúvidas deviam desaparecer. Mas acontece o contrário. Exemplo: uma pessoa pensa que começa a entender o mundo e o seu absurdo funcionamento. Em vez de ficar, por assim dizer, descansado, as dúvidas surgem ainda com mais força. Só pode acontecer isso. Exemplo: deciframos a razão (ou razões) que levam um homem matar outro. No entanto, e apesar de decifradas as razões, interrogamo-nos sempre: porquê?

Pop


Ah! Como gostava que tudo fosse simples como uma canção pop.

17.6.09

E agora um pouco de narcisismo balofo


Tendo em conta o número de visitantes por dia deste blogue, posso afirmar que se trata de um blogue de culto. Mais ao menos como as Sessões Especiais na Sala 2 (se não estou enganado) do cinema do Centro Comercial Avenida, em Coimbra.

Do cheiro


O mais terrível de estar deslocado é que só começamos a sentir-nos “localizados” no final. Só no final é que começamos a interagir mais com as pessoas que nos rodeiam, pois já nos cheiramos o suficiente para sabermos se podemos ou não entrar no espaço de cada um. Isso leva ao conhecimento de outros espaços, como o restaurante onde hoje fui almoçar. Fiz uma “vaquinha” com um colega e pedimos arroz de polvo e grão com todos – parece que não combina, mas combina. Uma cerveja sem álcool para mim (podem não acreditar mas é verdade) e uma jarrinha de branco para ele. Passado mais um pouco chegaram outras pessoas, por mim desconhecidas, e foi um almoço bom acompanhado de melhor conversa. É claro que isto acontece sempre na recta final. Depois para o ano há mais. Partir para outro lugar, cheirar, e lá para o final: confiar.

Há dias assim


Por vezes regresso a um silêncio que julgava resolvido.

16.6.09

Pensamento do dia


Governo - Meio Bicho e Fogo

Tipo: desejo


Gostava tanto de dizer e escrever coisas inteligentes e ser citado e tal.

Um dia como o de hoje


Em dias quentes como o de hoje, as ideias surgem trôpegas. É claro que as minhas ideias surgem sempre trôpegas. Ou melhor: são trôpegas. Mas nunca paro de pensar, nem que seja na morte da bezerra. Pensar, como sabemos, distingue-nos dos outros animais, embora eu goste de pensar que os animais também pensam. A ideia de instinto para definir o “pensar” de um animal é uma ideia que nunca me foi muito querida. Gosto de pensar que um leopardo pensa, principalmente quando vejo um documentário e aparece um (leopardo) a olhar o pôr-do-sol. Gosto de pensar que ele é capaz de pensar aquele pôr-do-sol. Mas… voltando ao início. Disse que penso. E penso naquilo que me leva a pensar. Penso: ao fim do dia fará alguma diferença ter pensado? O dia é melhor devido a isso? O que terá levado o Homem a pensar pela primeira vez? Como explicou isso aos outros Homens? Terá sido a inquietação que o levou a pensar? Como sabia o Homem que estava inquieto? Terá sido a necessidade de ocupar o tempo? A necessidade de respostas? Como sabia ele quais as perguntas? Tudo isto é demasiado para um dia como o de hoje.

15.6.09

A Parte pelo Todo – João Luís Barreto Guimarães



A Morte sempre foi um dos temas mais recorrentes em literatura. Na poesia portuguesa mais recente ele é recorrente. João Luís Barreto Guimarães (1967) não consegui escapar-lhe. Se em Luz Última (Cotovia, 2006) o tema povoou grande parte dos poemas, em A Parte pelo Todo (Quasi, 2009) o tema encontra-se em quase todos os poemas – de uma ou outra maneira, mas sempre associado à ideia de perda. Assim, entende-se o verso de Emily Dickson que abre o livro: «First – Chill – then Stupor – then the letting go». E é este o verso que dita a divisão do livro: três partes com nove poemas cada, dando a ideia de que a Morte está sempre presente, qualquer que seja a distância a que estamos do acontecimento (neste caso a morte do Pai). Mas como escrever sobre a Morte sem cair nos costumeiros clichés, lugares-comuns? Se tivermos em conta que a Morte é, por excelência, o supremo lugar-comum, a tarefa torna-se mais fácil e genuína. Contudo, isso não significa facilidade em falar na/sobre a Morte; não significa uma poesia não-rebuscada.

João Luís Barreto Guimarães está consciente desta questão. E tenta contorná-la. Um bom exemplo disso é o poema Introdução ao Niilismo, onde a Morte coabita com a ironia (ou será cinismo?): «A noite passada enviei um SMS ao meu Pai/mas ele não respondeu./Já kontava kom issu.» (p.19). É claro que o resultado nem sempre é o mais conseguido. No mesmo poema, uns versos mais à frente, o autor remata: «Já tenho ligado para Deus/parece dar sempre ocupado.» (p.19). Tal como de Deus, da Morte, esse segredo que se leva para a sepultura (Wislawa Szymbroska), nunca se obtém resposta, nada dela advém: «Um dia/depois de tombar plantámo-lo/num metro de terra talhado à terra dura/da terra onde nasceu./Ainda não cresceu nada.» (p.25). Novamente, é a ironia/cinismo que tenta salvar o poema.

Todavia, o tema mais presente, na poesia de João Luís Barreto Guimarães, não é a Morte: é o quotidiano: o quotidiano real e não transfigurado (é claro que este afirmação é arriscada), isto é, o dia-a-dia mais comum possível: «Quando Barbara entrou na Pequena Cirurgia/para resolver a lesão da hemiface esquerda/ninguém contava que eu lhe pedisse para dizer/Wislawa Szymborska. Era/uma mancha disforme de/tantos por tantos centímetros/cuja exérese resultou/(graças a Deus?)/completa.» (p.27). É claro que a validade poética – se é que tal coisa é ainda possível nos dias de hoje – pode ser aqui, como noutros poemas, questionada. Mas não é isso que a poesia deve fazer? Questionar? Colocar o homem frente a frente consigo mesmo? Haverá algo mais incerto e inquietante que o quotidiano? Haverá maneira mais simples ou bela de dizer, jogando com as palavras, aquilo que é evidente : «Na armadilha do tempo/ninguém tomba por engano:/não se expurga a pele por décadas quanto muito/dano a /dano.» (p.42).

Não sendo o livro mais conseguido de João Luís Barreto Guimarães, A Parte pelo Todo vale pelo confronto do Homem com o irrecuperável, pela denuncia (que nunca é suficiente) do absurdo que é a Morte, pela validade da poética do quotidiano.


João Luís Barreto Guimarães, A Parte pelo Todo, V.N. Famalicão: Quasi, 2009, pp. 43.

Leituras



Qualquer coincidência é pura semelhança


Quando Ernesto Sampaio publicou no Diário de Lisboa, em 19 de Junho de 1987, o texto O Cidadão Liru (posteriormente coligido em Ideias Lebres, Fenda, 1999), talvez não imaginasse a actualidade que o mesmo iria ter passados 22 anos. Ernesto Sampaio considerava, em 1987, que vivíamos num «triste tempo, regido pelo vazio, sem qualquer projecto histórico mobilizador», onde o mundo se encontrava domesticado pela angústia, cepticismo e «narcotizado pela apatia». Estas reflexões demonstram, talvez, que Ernesto Sampaio não ficou indiferente à leitura de Gilles Lipovetsky, nomeadamente do livro A Era do Vazio, publicado em França em 1983. Contudo, o texto de Ernesto Sampaio concentra-se no exemplo português. Em 1987 estávamos longe de saber o que o futuro nos reservava, nomeadamente ao nível da rede, do fenómeno dos blogues e das redes sociais. Em 1987 os blogues e as redes sociais eram outros, mas a obsessão «pela «informação», pela histeria de «comunicar», de se exibir gratuitamente perante um público fantasmagórico, insubstancial, que contempla indiferente a gesticulação autista dos novos narcisos pouco sofisticados», era a mesma. Mas que retrato faz Ernesto Sampaio de Portugal em 1987? Nada abonatório: «o ensino é medíocre e não tem qualquer finalidade humanista, a cretinice é a norma dos programas de rádio e televisão, a imprensa pratica sistematicamente o electrochoque afectivo (…), o obscurantismo, sob todas as suas formas, está na ordem do dia, os conceitos mais vis e reaccionários beneficiam de uma publicidade espaventosa, os poderes montam os dispositivos sofisticados para privar os cidadãos de qualquer hipótese de reflexão e acção.» (o texto é de 1987, lembram-se?). É claro que, neste cenário, a apatia impera. Por que razão os cidadãos não reagem? Porque devido a todos estes mecanismos opressores o cidadão «nunca se interroga sobre o que deve fazer (tem, aliás, a sensação de que não pode fazer nada), limitando-se a pensar com inquietação no que lhe virá a acontecer.». E Ernesto Sampaio continua: «É uma cultura maluca: prega a iniciativa privada aos desempregados e promete torná-los a todos empresários.» Mas, onde é que eu já vi isto?

12.6.09

Basicamente...


sou um gajo desmotivado.

9.6.09

Punk: ida e volta (5)


O lema era No Future. O niilismo dos Sex Pistols era evidente. Era punk. Eram apolíticos (se tal é possível), apesar das letras das suas músicas. Não apelavam à revolução, à revolta, ao contrário de outros grupos como The Clash, estes sim bastante politizados e com um forte cariz social. O punk é caos, desordem. Não é social, revolução.

Punk: ida e volta (4)


O conceito punk era muito simples: faz o que te apetecer e como te apetecer. No entanto, havia algo mais. Sid Vicious, por exemplo. Dizem que não sabia tocar baixo, que foi contratado pelo facto de fazer o que lhe apetecia e como apetecia. Tornou-se a figura mais conhecida dos Sex Pistols (o outro é Johnny Rotten). Mas será que a escolha de Sid Vicious é ingénua? Malcom McLaren não fazia nada ingenuamente. Os Sex Pistols eram constituídos por dois pilares: Sid Vicious (o rebelde sem causa) e Johnny Rotten (o intelectual do grupo – basta ouvir com atenção as entrevistas da altura para verificar isso). Os outros dois membros eram, por assim dizer, os músicos. A partir do momento em que Sid Vicious começa a sua espiral em direcção ao abismo, o grupo começa a desmoronar-se. Rotten segue-lhe os passos. Se manter uma casa só com dois pilares era difícil, sem nenhum era impossível.

Punk: ida e volta (3)


Não podemos esquecer que o punk foi conceptualizado por Malcolm McLaren (juntamente com a sua companheira da altura, Vivienne Westwood). O resto veio por arrastamento. Tal como aconteceu com o glam rock. Nos anos 70, os dois principais “movimentos” musicais – glam rock e punk – não o foram. Foram conceitos que degeneraram em “movimentos”. Mas, nenhum deles, tinha um cariz social. Antes estético.

Um poema de Rui Costa


Bar do Acaso

Escrevo, decerto, por qualquer
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.

Minto-lhes, digo que só te amo
a ti, eles riem e pedem-me pra ficar,
que sim, que a noite ainda é uma pequena
musa no breve altar venal do coração.
Fico. Dou à boca o jeito do cigarro
e é em fumo que transformo o corredor
de imagens, metáforas, pequenos desvios de
ritmo mais pobre ou queda sempre a pique
em sentido nenhum. Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.

em, O pequeno-almoço de Carla Bruni (edição bilingue), Punta Umbría: Ayuntamiento de Punta Umbría, 2009, p. 10.

8.6.09

Pensamento do dia


Sex Pistols - Holidays in the sun

Punk: ida e volta (2)


Na realidade, o punk durou o tempo exacto de gravação de Nerver Mind the Bollocks. Tudo o resto é pós-punk, incluindo os próprios Sex Pistols, depois de gravarem o seu único álbum em estúdio. Poderíamos falar dos Buzzcocks. Mas esses, na realidade, nunca foram punk: apenas tocaram no mesmo concerto que os Sex Pistols (no Lesser Free Trade Hall - Manchester - em Julho de 1976). Tudo o resto que veio a seguir, e se auto-intitulou de punk (lembro, por exemplo, Exploited), é apenas uma tentativa de capitalizar algo que teve apenas alguns minutos de vida.